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A falta de médicos - Rádio Altitude

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Setembro 13, 2021

A falta de médicos

Se o Hospital da Guarda é hoje uma referência e continua a merecer a confiança das pessoas é porque os seus profissionais, todos, se esforçam sobremaneira e garantem uma prestação de serviços de excelência

Em junho de 2019, a notícia de que um médico espanhol, no Hospital de Faro, ganhou 326 mil euros no ano anterior provocou enorme surpresa e algum impacto, mas foi rapidamente esquecida. Miguel Angel (cito o nome de cor, mas o nome é o menos importante desta história) é anestesista e ganhou mais de 27 mil euros por mês durante um ano. Terá trabalhado cerca de 125 horas semanais, ou seja, algo como 17 horas por dia, sem folgas e sem férias. Os sindicatos e a Ordem dos Médicos fizeram por silenciar o assunto e ainda atiraram que era «lamentável». De acordo com o contrato publicado no portal BASE, o anestesista recebeu 326 mil euros do Estado português em 2018 no exercício do seu trabalho de médico “tarefeiro”. Poderia simplesmente comentar que aquele médico espanhol auferiu mais num ano do que Marcelo Rebelo de Sousa desde que chegou à Presidência da República em 2016 (há cinco anos). Mas se o caso daquele anestesista é extraordinário, consultando o portal BASE vemos que há muitos outros assim. O pagamento a médicos “tarefeiros” ou a empresas de prestação de serviços médicos é incompreensível e custa centenas de milhares de euros, por médico, por ano. E se um médico em dedicação exclusiva, em início de carreira (35 horas) aufere 2.582 euros, imediatamente a seguir duplica e triplica esse valor (com dedicação exclusiva de 42 hora/semana começa a trabalhar com um salário de 3.409 euros), a que acrescem as muitas horas extraordinárias, as noites, os feriados ou os fins-de-semana… E o assunto é relevante porque a falta de médicos em todo o país é reiterada e, como bem sabemos, a falta de médicos é um dos maiores problemas do interior.

Há algumas semanas, ao microfone da Rádio Altitude, o socialista José Igreja, sem pruridos, afirmou que «só quando houver médicos no desemprego» é que deixará de haver falta de médicos. Mas, para isso, o regime tem de mudar, e muito! Entretanto, o estado corporativo da saúde não o permite.

O ministro Manuel Heitor, em entrevista ao DN, disse com todas as letras que tem de haver mais formação de médicos e para isso quer criar os cursos de medicina em Vila Real, Aveiro e Évora. Não é a primeira tentativa do Governo em alargar a formação de médicos, mas a Ordem e os sindicatos, com a ajuda involuntária de “todos”, têm travado essa reforma essencial da saúde em Portugal. Entretanto, como corporativamente os novos cursos de medicina têm sido travados, o Governo autorizou a Universidade Católica a fazer um (em Portugal há Medicina em Braga, no Abel Salazar e Universidade do Porto, na Beira Interior, em Coimbra, na Universidade de Lisboa e na Nova de Lisboa, na Madeira e Açores, ciclo básico, e no Algarve, para quem já tem um curso superior). A Ordem e os sindicatos médicos argumentam sempre com a qualidade da formação dos médicos para se opor a novos cursos, mas a verdade é que, todos os anos, chegam ao sistema de saúde português cerca de 500 médicos formados em universidades estrangeiras (nomeadamente jovens portugueses que tiram o curso em Espanha ou na República Checa).

A falta de clínicos tem sido tema recorrente no interior e a atribuição à Guarda de apenas 10 das 1.073 vagas abertas pelo Ministério da Saúde é um tema central no debate político na campanha autárquica. Mesmo considerando a gestão entretanto feita pela ULS para minorar esta discriminação (anunciando a contratação de clínicos depois de não ter sido considerado quando pediu a abertura de 45 vagas) é lamentável – o desprezo com que a ARS do Centro tem tratado a Guarda e o distrito tem de ser pública e politicamente contestada. E o anúncio do lançamento do concurso para a construção do “pavilhão 5”, procurando aproveitamento eleitoral e tentando fazer esquecer a segunda fase há muito prometida e exigida por todos, tem de ser discutida pois sem melhores condições físicas e técnicas também não será possível atrair profissionais de saúde, nem é possível prestar serviços de qualidade às populações (não tenhamos dúvidas, se o Hospital da Guarda é hoje uma referência e continua a merecer a confiança das pessoas é porque os seus profissionais, todos, se esforçam sobremaneira e garantem uma prestação de serviços de excelência – os médicos, os enfermeiros, os técnicos, os auxiliares… E o nascimento de um hospital privado em nada virá alterar essa perceção, pelo contrário, um hospital privado irá travar, isso sim, a sangria de pessoas que agora vai ter alguns cuidados de saúde em privados de Viseu, Porto ou Coimbra – em especial quem tem ADSE). Quem não perceber isto, não percebe nada…

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