O neurocientista Rui Costa, os professores universitários Valentin Cabero (da Universidade de Salamanca) e Rui Jacinto (da Universidade de Coimbra), o antigo autarca Daniel Vendeiro (de Fernão Joanes), o artesão Joaquim Venâncio (de Famalicão da Serra), o antigo dirigente desportivo Armando Gil, os jovens médicos e investigadores João Casanova e Diogo Libânio e a veterana médica pediatra Susana Xavier vão ser homenageados no Dia da Cidade, no feriado municipal de 27 de Novembro, data em que passam 820 anos desde a atribuição do foral pelo rei D. Sancho I. 

Na lista de galardoados estão ainda duas instituições: a Casa do Bom Café e o Clube Escape Livre.

Mas a surpresa é a atribuição da medalha de mérito municipal a Américo Rodrigues, nomeado director-geral das Artes em Fevereiro deste ano. E ganha maior relevência pelo facto de se tratar de um funcionário que é galardoado pelo município a cujo quadro não deixou de pertencer. Ou seja: quando terminar as actuais funções e regressar ao serviço de origem (se entretanto não tiver solicitado a mobilidade para qualquer outra instituição da administração pública) terá uma condecoração agora atribuída pelos que voltarão a ser seus superiores.

A proposta partiu da vereadora Cristina Correia, do Partido Socialista, e foi aceite e integrada pela maioria PSD na lista final aprovada por unanimidade na reunião de Câmara desta segunda-feira.

A homenagem acontece seis anos depois de o mesmo executivo (embora na altura sob a presidência de Álvaro Amaro) ter exonerado Américo Rodrigues das funções de director do Teatro Municipal.

A ideia surgiu entre intervenientes no aniversário do Centro Cultural da Guarda, há pouco mais de uma semana, para o qual Américo Rodrigues foi o convidado de honra. A eleita socialista apresentou-a formalmente nos dias seguintes, ainda que o líder da bancada da oposição na Câmara, Eduardo Brito, faça questão de não colocar o PS a assumir sozinho a autoria: a maioria PSD recebeu-a, aceitou-a e integrou-a no elenco dos agraciados, por isso a proposta é da Câmara e não do Partido Socialista, sublinha o vereador.

O presidente da Câmara, Carlos Chaves Monteiro, também esclarece que a entrega da medalha de mérito municipal a Américo Rodrigues integra-se num acto de consenso e num reconhecimento de méritos profissionais e pessoais.

Para trás ficou a polémica que marcou o início do actual executivo, quando em Novembro de 2013 afastou o director do Teatro Municipal da Guarda - uma decisão que o programador cultural acabaria por denunciar em conferência de imprensa, criticando o novo presidente da Câmara e o desconhecimento que o acusava de ter em relação à Guarda, ao TMG e a ele próprio.

Esta foi uma das várias polémicas em que Américo Rodrigues se viu envolvido. Três anos antes, em Dezembro de 2010, a Assembleia Municipal aprovava com votos do PS e do PSD um repúdio ao cidadão, pelo facto de, num blogue que mantinha, criticar actos, decisões e protagonistas do poder autárquico, na altura de maioria PS. Mas era da bancada do PSD, então liderada por João Correia, que vinham algumas das mais duras críticas. Américo Rodrigues tinha responsabilidades que o obrigavam a outra conduta, assinalava ou então eleito social-democrata, que dizia assumir aquela posição em solidariedade para com todos os eleitos nos órgãos autárquicos.

O director do Teatro Municipal da Guarda sentiu-se declaradamente magoado com a cidade e numa entrevista à Rádio em Abril do ano seguinte confessou que «até era uma situação assim um bocadinho complicada para mim» que algum dia fosse ressarcido com uma homenagem pública, tendo deixado claro que «nem a Guarda me deve nada, rigorosamente nada». Isto em resposta a uma pergunta sobre a eventual atribuição de uma medalha.

Porém, dias depois daquelas declarações, recebia das mãos da então ministra Gabriela Canavilhas a medalha de mérito cultural, por proposta do governador civil Santinho Pacheco. Aceitava-a como um gesto contra «o populismo».

Agora vai ser também agraciado com a medalha de mérito municipal, 31 anos depois de ter recebido a mesma distinção (Abílio Curto era presidente da Câmara e Carlos Baía  vereador da Cultura), em nome do grupo de teatro Aquilo, de que era fundador e presidente.

Regressará assim para protagonizar uma aparente reconcialiação com o passado recente na Guarda.

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