O congresso distrital do Partido Socialista poderá já não ser no próximo sábado. A decisão ainda não estará tomada, mas a Rádio sabe que o adiamento tem sido ponderado pela Comissão Organizadora do Congresso (a entidade que coordena todo o processo eleitoral para a federação) com o conhecimento da direcção nacional do PS.

Tanto ao nível distrital como em Lisboa existe o receio de que as 48 horas entre a segunda volta das eleições para o lugar de presidente da federação (depois de amanhã, quinta-feira) e o congresso agendado para sábado em Figueira de Castelo Rodrigo não sejam suficientes para sarar eventuais feridas que, se não foram visíveis na primeira volta (no passado dia 9), talvez fiquem expostas na quinta-feira.

Ganhe quem ganhar, o novo presidente vai precisar, no imediato, de muita capacidade de negociação perante um congresso divido. Nas eleições para delegados, Alexandre Lote elegeu 52, Pedro Fonseca 47 e José Luís Cabral. 39. Se os apoiantes de José Luís Cabral (o candidato que não vai à segunda volta) passarem para o lado do vencedor, seja Alexandre Lote ou Pedro Fonseca, isso poderá conduzir, na opinião de várias fontes com conhecimento da situação interna do PS, a que a outra parte seja uma potencial oposição interna, com força suficiente para travar decisões e condicionar a composição da próxima comissão política distrital.

É neste contexto de algum modo preventivo que tem sido encarada a vantagem de um eventual período de espera entre as eleições e o congresso – o que aliás teria acontecido se o sufrágio tivesse sido conclusivo no dia 9.

O facto que se aproximar a Páscoa dá à COC um argumento para o eventual adiamento por duas semanas. A confirmar-se, será marcado para 7 de Abril. Mas, para já, mantém-se a data de 24 de Março.

Quanto às eleições desta quinta-feira, parece tomar forma o cenário que a Rádio avançou a seguir à primeira volta.

Pedro Fonseca (que ficou em segundo lugar, com menos 51 votos que Alexandre Lote) estará em negociações avançadas para ter o apoio o candidato derrotado, José Luís Cabral, e assim conseguir a maior parte dos 368 votos que o antigo vice-presidente da Câmara de Celorico da Beira obteve.

Porém, o acordo não será com José Luís Cabral mas sim com José Albano Marques.

Só que o actual líder da concelhia de Celorico da Beira, e antigo presidente da federação distrital (entre 2008 e 2016), é quem na realidade determinará o sentido de voto, pelo menos da quase totalidade dos cerca de 200 militantes com as quotas pagas na estrutura a que preside.

Terá, no entanto, colocado várias condições. Uma delas é ser nomeado director da Segurança Social da Guarda, onde o social-democrata Jacinto Dias ainda não foi substituído pelo Governo do PS.

José Albano Marques já exerceu o cargo e é actualmente quadro superior daquele serviço, ao qual regressou depois de ter sido chefe de gabinete do presidente da Câmara de Celorico da Beira e de ter perdido as eleições autárquicas de Outubro.

Desde então tem-se movimento no sentido de ocupar de novo o lugar de director, embora sem querer afrontar Jacinto Dias, com quem mantém uma boa relação.

Está por isso a haver uma corrida contra o tempo, de maneira dar ao ainda homem forte do PS no distrito a garantia de que terá aquilo que pretende.

Só que Pedro Fonseca não é conhecido no Largo do Rato e é até visto, segundo várias fontes, com desconfiança pelos dirigentes nacionais, pela maneira como chegou ao PS e poderá acabar por presidir à federação em menos de dois anos, vindo de outro partido (o PAN, cuja estrutura regional liderou e pelo qual foi cabeça de lista no distrito nas eleições legislativas de 2015) e liderando uma "enchente" de novos filiados.

Um dos principais negociadores poderá, assim, ser alguém que pareceria o último aliado possível de José Albano Marques: nada menos que Eduardo Brito.

O vereador na Câmara da Guarda, apoiante de Pedro Fonseca, é quem terá estado nos últimos dias a desenvolver contactos em Lisboa, tentando fazer ver as desvantagens de o PS chegar às próximas eleições legislativas tendo um militante do PSD à frente da Segurança Social, que é considerada um dos últimos serviços com alguma capacidade de gestão e influência política.

Mas a garantia pode não vai ser fácil de cumprir, porque da parte do Governo não parece haver interesse em fazer mudanças.

A comissão de serviço de Jacinto Dias tem a duração de cinco anos e termina em Dezembro de 2019. Substituí-lo agora significaria indemnizá-lo mas, principalmente, abrir uma polémica na recta final do mandato, a caminho das eleições, quando esse cenário nunca antes terá sido colocado.

Por outro lado, o actual director, mesmo sendo militante do PSD, soube afastar-se da vida partidária activa e nem sequer concorreu a um novo mandato como presidente da Junta de Freguesia de Panóias de Cima. Acabou por conquistar assim a tolerância por parte do ministério de Vieira da Silva. E localmente aplica as políticas do actual Governo, dentro da escassa margem que um director distrital da Segurança Social mantém.

Não menos importante, o Partido Socialista a nível nacional não estará confortável com o cenário de uma nova polémica na Guarda, depois da que envolveu a nomeação de um novo conselho de administração para Unidade Local de Saúde. Fazer agora mudanças na Segurança Social num mero contexto de negociação de apoios para as eleições federativas não está a ser, sequer, uma hipótese encarada pelos dirigentes em Lisboa.

Mas ainda que esta seja uma das condições que José Albano Marques estará a colocar em troca do apoio ao vencedor das eleições de quinta-feira, fontes do partido asseguram à Rádio que, mesmo que não lha consigam concretizar, o antigo presidente da federação já conseguiu reforçar a influência.

O ser “fiel da balança” acentua-lhe um poder que não deixou de exercer. E se não tiver para já a garantia da nomeação para a Segurança Social poderá acabar por conceder o apoio àquele que, como presidente da federação possa ficar mais dependente do homem forte de Celorico da Beira. Ou seja: alguém que José Albano Marques possa considerar “matéria-prima em bruto” e com quem possa relacionar-se mantendo o ascendente.

Neste cenário, Pedro Fonseca poderá ser o vencedor da segunda volta das eleições.

O antigo militante do PAN (Pessoas, Animais, Natureza) tem, aliás, vindo a tentar robustecer o currículo como socialista, até mesmo em declarações públicas, revelando que antes de se ter filiado no PS, em meados de 2016, já o próprio então presidente da federação distrital do partido o tinha desafiado nesse sentido, vários meses antes. O presidente era José Albano Marques, com quem desenvolveu a partir daí uma grande proximidade política.

Agora ambos poderão juntar as respectivas bolsas de votos para garantir que Pedro Fonseca seja o próximo líder distrital do PS.

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